Quanto Romário custou ao Flamengo em 1995? Quando 1 real valia 1 dólar...

Com a desvalorização do real, equiparado ao euro e ao dólar, voltaremos um pouco no tempo, no ano de 1995, para lembrar a contratação de maior repercussão na época em que o real era uma moeda efetivamente forte: a volta de Romário ao Brasil, para vestir a camisa do Flamengo.



A negociação de Romário serve bem pra fazer a gente compreender como a alta de moedas estrangeiras pode afetar o futebol brasileiro em sua essência, e também como que os salários de jogadores medianos, ou falsas promessas, subiu monstruosamente nos últimos vinte anos, fazendo os clubes perderem o parâmetro da relação de quanto pagar por aquilo que um jogador pode render.



Quando Romário retornava, não se tratava de um resgate na carreira como tentou Alexandre Pato no Corinthians, ou Ronaldinho Gaúcho no Flamengo. O baixinho estava longe de viver um ponto decadente ou graves lesões. Era vice-campeão da Uefa Champions League 1993/94, protagonista do tão sonhado tetra para a Seleção, na Copa do Mundo de 94, e o maior jogador do mundo, de acordo com a premiação World Player of the Year, da Fifa, que ainda dividia as honrarias de melhor do mundo com o prêmio da Ballon d'Or, a Bola de Ouro da revista France Football, que elegeu Hristo Stoichkov como o melhor de 1994.



Dentro das quatro linhas, alguns especialistas cravam que transferir Romário, em 1994, era como trazer Lionel Messi para o Fla. Mas se avaliarmos o extracampo, seria como contratar Neymar ou Cristiano Ronaldo, já que o "Rei da Área" também despontava no merchandising, de inúmeras empresas, vendendo produtos como a cerveja Brahma, televisores Philips, chuteiras da Nike e chinelos Rider, até ali bem acima do que a Havaianas representa no mercado de sandálias atualmente.



Tal relação do camisa onze com o marketing fez com que o rubro-negro da Gávea reunisse um pool de empresas para bancar a transação. Um grupo de marcas nacionais se mostrou interessada em firmar a aquisição, para na sequência transformá-lo em um "supergaroto-propaganda no Brasil e no exterior", como relatou a Folha de São Paulo em 11 de janeiro de 1995, sob reportagem do jornalista Mário Magalhães.



Numa época em que o marketing esportivo ainda engatinhava no Brasil, o controverso presidente flamenguista Kleber Leite trabalhou em uma operação estratégica com as empresas Brahma, Banco Real, Barrashopping e TV Bandeirantes, que tratariam de conduzir manobras promocionais para dar destaque a Romário na mídia. Além das quatro marcas, Umbro e Petrobras, que já patrocinavam o Flamengo, também ajudariam de maneira suplementar.



Como na época o euro ainda não existia, a moeda de livre comércio internacional era o dólar, e como 1 real tinha o mesmo valor de 1 dólar, o Flamengo conseguiu fechar a negociação com o pagamento de 4,5 milhões de dólares. E junto de seu salário de 62,5 mil dólares, aos 27 anos, Romário se tornava ali o jogador das cifras mais valiosas do país.

Agora, pare para refletir esta realidade de 1 dólar na casa de 1 real. O Palmeiras, que já era forte, virou uma máquina trazendo Djalminha, Cafu e Rivaldo. O Flamengo trouxe Edmundo pra fazer dupla com Romário. O Santos vendeu Giovanni, reformou a Vila Belmiro e ainda planejava Maradona. Até o Vitória-BA ousou, repatriando Bebeto e abrindo as portas para o sérvio Petkovic, que todos nós conhecemos pela trajetória histórica no futebol do Rio.

Em meados de 90, tirando os mais endividados (ou os menos malucos), bastava seu time emplacar uma grande venda, acertar sua conjuntura econômica fechando uma boa parceria, analisar bem o mercado e pronto: montava um super time em dois estalos! Mesmo que esse time ficasse só no papel e virasse um fiasco, como o Corinthians Excel... A questão é que com o dólar a um real, os jogadores podiam se dar ao luxo de querer ficar no Brasil. Como no caso em que Marcelinho desistiu do Valencia para voltar ao Corinthians, Viola também deixou os blanquinegres e reforçou o Palmeiras, e Edmundo dispensou a Fiorentina, ignorou sondagens do Real Madrid, e retornou ao Vasco.

Isso deixa claro como que a cabeça de jogador brasileiro funciona, hoje ou a vinte anos atrás. Sobretudo com a influência de empresários, os craques vão atrás da grana, vão pra onde tiver de ir, desde que paguem bem, muito mais se a moeda for quatro vezes mais alta do que o real. É triste, mas essa alta do dólar traz um sério risco de empobrecer os times brasileiros, e se cada um não garimpar bem, e investir em departamentos de scouts e informações para montagem de elenco, continuaremos a ver casos de equipes remendadas de medalhões e desconhecidos, na ladeira constante da zona de rebaixamento, como estamos vendo acontecer com o Vasco. E aos clubes mais organizados, não se iluda: aquele desejo de repatriar um craque dos sonhos vai ficar mais longe, a não ser que ele esteja disposto a ganhar menos. Mas Juninho Pernambucano, Zé Roberto e Ricardo Oliveira são raríssimas exceções.

Para piorar, reparou nos valores de negociação de Romário? 4,5 milhões de dólares hoje não é nada, se levarmos em conta que com US$ 9 milhões, você contrata no máximo um meia ou um zagueiro prestes a encerrar carreira, e ainda com um salário absurdo, na faixa de R$ 300 mil na folha (no mínimo), fora os direitos de imagem, a incerteza do rendimento e as lesões...

Em 2011, o Flamengo até conseguiu driblar essa inflação de craques no valor de passe de Ronaldinho, pagando US$ 4,08 milhões ao Milan. Mas além do fato de que a diretoria rossonera queria mais é se livrar do meia atacante, na época com 30 anos, temos que nos atentar de que o salário era doze vezes maior, na faixa de 770 mil reais por mês, conforme relatado pelo GloboEsporte.com. E o final dessa história, a gente já sabe...

Essa remuneração sem propósito de Ronaldinho é parecida com a de Fred e de Alexandre Pato, de acordo com estudo feito pelo Uol Esporte. No começo desse ano, o portal destacou que o salário de Pato também beira os R$ 800 mil, e que a inflação, que naturalmente elevou os preços dos jogadores, não justifica o ordenado do são-paulino, que está acima do que Romário ganharia hoje.

Pelo levantamento do Uol se tomarmos como base a correção monetária efetuada a partir da inflação, Romário ganharia hoje entre 312 e 520 mil reais, ou seja, quase a metade do que Pato ou Fred. Sem menosprezar o futebol dos dois, mas é algo inaceitável pelo que o baixinho produzia.

Nessas condições, "inaceitável" é a palavra-chave pro futebol brasileiro estabelecer uma reflexão e colocar de vez um pé no freio na hora de negociar jogadores. Não se pode tolerar valores acima de 400 mil (sobretudo de treinadores), e muito menos justificar contratações astronômicas com a conversa de "retorno de marketing" ou "venda de camisas". Ronaldinho no Fluminense está para comprovar isso.

Por mais que o mundo árabe, a liga chinesa e a MLS norte-americana estejam tão predadoras na hora de vir pra cima de nossos jogadores, o mercado nacional tem que se conscientizar da nossa realidade e nossos padrões. Aliás, por mais dinheiro que tenha, a MLS trabalha com um limite orçamentário, onde todos os times só podem gastar até X, e só podem contratar até três jogadores com valores muito elevados, impedindo os clubes de cometerem loucuras.

Se existe aquele clichê em que aponta que "brasileiro só toma uma providência quando acontece o pior", espero que essa crise sirva de lição e de gancho para os times terem um compromisso maior com suas finanças, de maneira equilibrada, pra poder bancar seus salários em dia e montar um time, ao invés de comprar uma estrela. Pois, dentro dos exemplos citados, o mais absurdo é que com o que se paga pra um grande astro, é possível formar um plantel vencedor e mais sólido. Afinal, só para reforçar a ideia e terminar de lembrar o histórico de Romário pelo Fla, o Baixinho só ergueu um Cariocão na sua primeira passagem pelo rubro-negro...

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